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Pedaços de mim




Perdi o primeiro amigo aos 8 anos de idade. Ele foi atropelado por uma patrola quando faziam a avenida Santos Dumont na minha cidade. De lá para cá foram-se muitos.


Nestes tempos de pandemia tenho chorado a despedida de pessoas queridas que perderam a luta para a Covid 19. Com elas conversei, sorri e até me chateei, em todos esses momentos elas me ensinaram muito. Fizeram parte da minha história.


Cada um que partiu apressadamente é como se um pedaço de mim estivesse indo embora. Essas perdas me mostraram que não sou sozinho, não sou uma ilha. O homem que sou foi construído com os pedaços que cada amigo trouxe e generosamente deixou em meu peito. As pessoas que hoje me cercam estão me ajudando a ser melhor no futuro. Afinal, “sou uma metamorfose ambulante”. Devo a cada construtor de mim o que sou hoje e o que serei amanhã. Estou ficando aqui para os amigos me aperfeiçoarem.


Como eles me trouxeram até aqui e partiram, agora cabe-me leválos comigo. Os levarei nas lembranças dos risos soltos por uma piada, dos segredos que toda amizade guarda e dos futuros planejados e interrompidos.


Dizer que a morte faz parte da vida ou que o tempo cura as dores, isso é verdade, mas é muito pouco para tentar consolar uma dor. Essa dor nem uma nova amizade consola pois cada amizade tem seu cantinho, seu jeito de ser, sua particularidade.


Lembro com mais firmeza daqueles que corresponderam a nossa amizade. Segundo Aristóteles, uma amizade se faz de compromisso e reciprocidade. Não podemos ter amizade com quem não se compromete. Por isso os verdadeiros amigos são poucos, é humanamente impossível ter um milhão de amigos.


Quando você partir como gostaria de ser lembrado, pelas grosserias que esbanjou, pelos risos que provocou ou pela alegria que ofereceu?

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